Judicialização em massa no setor de telecomunicações: como transformar passivo em estratégia

A judicialização em massa no setor de telecomunicações é um dos maiores desafios enfrentados pelas empresas do segmento no Brasil. Reclamações relacionadas a cobrança indevida, interrupção de serviços, cláusulas contratuais e práticas comerciais representam uma parte significativa do contencioso judicial enfrentado diariamente pelas operadoras.

Segundo dados do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), o setor de telecomunicações está entre os que mais acumulam processos no país, com centenas de milhares de ações tramitando nos tribunais estaduais e federais. Diante desse cenário, é fundamental que as empresas deixem de enxergar esse volume como um simples custo inevitável e passem a tratar o contencioso como uma frente estratégica de atuação jurídica e institucional.

Neste artigo, abordamos as causas da judicialização em massa, os impactos para as organizações e, principalmente, os caminhos para a transformação do passivo em oportunidade de gestão, eficiência e melhoria na experiência do cliente.

As causas da judicialização em massa

O alto índice de judicialização no setor é resultado de uma combinação de fatores históricos, estruturais e culturais. Entre os principais, destacam-se:

  • Complexidade regulatória: o setor é altamente regulado pela Anatel, com normas que nem sempre são claras ou atualizadas diante das inovações tecnológicas.
  • Modelos de negócios centrados em escala: muitas operadoras adotaram estruturas operacionais que priorizam volume e capilaridade em detrimento de atendimento personalizado e resolução eficiente de conflitos.
  • Deficiências nos canais de atendimento e SACs: falhas no atendimento ao consumidor ainda são recorrentes e muitas vezes impulsionam a busca do cliente por soluções no Judiciário.
  • Cultura da judicialização no Brasil: a facilidade de acesso ao Judiciário e a atuação de escritórios especializados em ações de consumo incentivam o aumento da litigância em massa.
  • Ações padronizadas e repetitivas: escritórios que automatizam a entrada de processos com demandas semelhantes geram um efeito de enxurrada judicial, dificultando o acompanhamento estratégico por parte das empresas.

Impactos do contencioso massificado

O contencioso de massa não representa apenas custos diretos com honorários advocatícios, custas processuais e condenações. Ele também compromete a imagem institucional, afeta a experiência do cliente e consome recursos internos significativos para gestão de informações e cumprimento de prazos judiciais.

Além disso, a ausência de controle sobre o passivo judicial dificulta a previsibilidade financeira, podendo impactar diretamente a governança, as demonstrações contábeis e até mesmo a avaliação de risco regulatório e de crédito da empresa.

Transformando passivo em estratégia

O primeiro passo para a transformação do contencioso é deixar de enxergá-lo como uma área meramente reativa. A atuação deve ser orientada por gestão estratégica de dados, integração com outras áreas da empresa (jurídico, compliance, atendimento, tecnologia, produto) e foco na prevenção de litígios.

Abaixo, listamos algumas práticas fundamentais para transformar a judicialização em uma fonte de insights e vantagem competitiva:

  1. Mapeamento e categorização de demandas

É essencial identificar quais são os tipos de ações mais recorrentes, em quais regiões, com quais fundamentos e quais produtos ou serviços estão mais envolvidos. O uso de ferramentas de BI (Business Intelligence) e legal analytics permite transformar um grande volume de dados processuais em informação estratégica.

  1. Adoção de robôs e inteligência artificial

A automação no recebimento de citações, elaboração de defesas padronizadas e gestão de prazos permite maior eficiência operacional e redução de falhas. Sistemas baseados em IA também auxiliam na classificação de processos e na definição de teses prioritárias.

  1. Revisão de produtos e políticas internas

As informações extraídas dos processos judiciais devem retroalimentar áreas como atendimento ao cliente, marketing, comercial e desenvolvimento de produtos. Muitas judicializações derivam de falhas recorrentes de comunicação ou políticas mal interpretadas.

  1. Uso de acordos como ferramenta de controle

Negociar acordos pode ser vantajoso quando os custos processuais superam os benefícios da litigância. A estratégia de acordos deve ser acompanhada de critérios objetivos para evitar incentivo à judicialização oportunista.

  1. Atuação proativa com órgãos reguladores e entidades de defesa do consumidor

A construção de pontes com a Anatel, Procons e Defensorias Públicas pode resultar em termos de ajustamento de conduta e ações educativas que reduzem a litigância e reforçam a reputação institucional da empresa.

  1. Gestão centralizada e com governança

Criar uma célula de inteligência jurídica, com foco específico no contencioso de massa, permite ganhos de escala e uniformidade na atuação, especialmente quando integrada a departamentos de compliance, atendimento e controladoria.

O papel do jurídico na transformação

O jurídico deixa de ser um centro de custo para se tornar um parceiro estratégico do negócio. A atuação proativa permite:

  • Antecipação de riscos;
  • Redução de contingências;
  • Geração de valor reputacional;
  • Melhoria na experiência do cliente;
  • Apoio em decisões regulatórias e institucionais.

Empresas que adotam essa visão conseguem não apenas reduzir o passivo judicial, mas também utilizá-lo como bússola para melhorias internas e inovação nos serviços oferecidos.

Conclusão

A judicialização em massa no setor de telecomunicações é uma realidade que exige abordagem estratégica. Enxergar o passivo como fonte de inteligência é fundamental para transformar desafios em oportunidades.

Em vez de apenas reagir ao contencioso, o setor deve buscar compreender as causas estruturais das ações, identificar padrões, dialogar com os órgãos reguladores e, sobretudo, atuar com transparência e responsabilidade frente aos consumidores.

A transformação do passivo judicial em vantagem competitiva depende de visão sistêmica, investimento em tecnologia e um jurídico preparado para ocupar um papel de protagonismo na estratégia corporativa.

 

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